BAIXE E OUÇA O ÁLBUM VIOLAR DO SELO INSTITUTO

 

Rica Amabis

Tejo Damasceno

André Lucarelli

Carol Meireles

 

Instituto por Alexandre Matias

A dupla de produtores Rica Amabis e Tejo Damasceno virou coletivo com a entrada do músico e produtor Daniel “Ganjaman” Takara ainda na virada do século. Não se tratava de uma banda clássica, com líder ou vocalista e cada um cuidando de um instrumento.

O formato, que redistribui funções - todo mundo faz quase tudo -, tem raízes nos hippies dos anos 1960 e ressurgiu como uma forma de organização de grupos do início da cultura digital, duas décadas depois. Na virada do século, essa nova hierarquia (ou a ausência dela) chegou à produção cultural e o Instituto foi um dos seus principais difusores.

Nove entre dez rappers do início do século fizeram algum trabalho com o Instituto

Tudo era discutido de forma aberta e os papéis de cada um na produção eram propositadamente difusos - além de abrir a possibilidade de colaborações infinitas. Assim, começaram a redesenhar o cenário musical brasileiro com elementos tradicionais, modernos, de vanguarda e experimentais.

Eles são diretamente responsáveis por baixar a bola do rap mais barra pesada e mudar o tom do hip hop brasileiro. Influenciaram até mesmo os Racionais MCs, ao incluir o elemento ao vivo, e trouxeram tanto novos temas quanto novas sonoridades para a discussão.

“Nossa aproximação com rap veio pelo inusitado, de buscar mundos que naturalmente não se juntariam”, diz Amabis. Eles gravaram o disco de rap mais esperado da época, “Nada Como um Dia Após o Outro Dia”, dos Racionais, em 2002. Nove entre dez rappers paulistanos no início do século trabalharam com os caras, juntos ou separados.

Sabotage: da aproximação à tragédia#

Mas foi o contato com Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, que serviu como gatilho para o próximo estágio do Instituto: o palco. E desde a primeira vez que eles o viram sabiam que não estavam lidando com um artista comum. “Quando abriu a música e ele começou a rimar, a gente se olhou e sabia que nunca tinha visto algo como aquilo na vida”, lembra Tejo, sobre quando viram o rapper pela primeira vez em ação, na gravação de “Enxame”, do grupo SP Funk. Em pouco tempo, Sabotage se tornaria uma das maiores revelações do rap brasileiro. Em sua ascensão, ele quis ser o mestre de cerimônias do Instituto ao vivo.

Morte de Sabotage fez o coletivo parar tudo

“Já deu uma segurança, porque a gente já tinha um MC foda. Isso deixa tudo mais fácil”, continua o produtor. Rica lembra como iam ao palco: Sabotage como MC, Ganjaman no teclado, Rian no baixo, Maurício Takara na bateria, Beto Bocão na percussão, (Fernando) Catatau na guitarra e (Alexandre) Basa na flauta. “Banda boa, né?”, brinca Tejo.

Nas participações havia Z’África Brasil, Otto, Black Alien, Marechal, De Leve, Los Sebosos Postizos e BNegão. Os primeiros shows com Sabotage aconteceram em São Paulo, todos em 2002. “O último foi no Rio em janeiro de 2003”, lembra Tejo. Dias depois, o rapper foi assassinado.

“Quando o Sabotage morreu, a gente parou tudo”, diz Rica. Tejo continua: “Lembro dos caras da Nação Zumbi falando que sabiam exatamente o que a gente tava passando. Eles, melhor que ninguém, sabiam o que tava rolando, pois tinham perdido um amigo e alguém que era o ouro.” Eles se referiam a Chico Science, líder da banda pernambucana, morto em 1997 em um acidente de carro.

A vida após Sabotage#

Sem shows, o trio começou a pegar outros trabalhos e focar nos lançamentos dos discos do próprio selo. O Instituto esteve intimamente ligado à sobrevida que os artistas pernambucanos da geração mangue beat reencontraram em São Paulo, trabalhando com todos os nomes da árvore genealógica desse movimento.

 

Uma banda de não-músicos#

A formação do Instituto foge completamente do que se espera de uma banda. Tejo e Rica são técnicos de som, cresceram em estúdios - caseiros e profissionais -, onde começaram a fazer música mesmo sem ser músicos. Compõem com pedaços de faixas alheias - um trabalho que, descrito assim, parece ser uma simples colagem. Mas a precisão cirúrgica chega a compor acordes e dedilhados de violão pinçados nota a nota em programas de computador, usando trechos aleatórios de discos que tenham o timbre do instrumento. Eles usam paisagens artificiais sonoras tão vívidas que hipnotizam os ouvidos.

Do trio, apenas André Lucarelli, que em 2009 passou a integrar oficialmente o coletivo, é músico de fato. André, junto com Tejo e Rica, foi responsável pela composição das trilhas sonoras de filmes como, "Bruna Surfistinha", "Mato Sem Cachorro", "Reza A Lenda" e séries de TV, "O Negócio", "PSI", "FDP", entre outras.

A formação também trata de forma diferente o aspecto mercadológico da música. Enquanto o mercado se desfazia após a crise do download gratuito, no início do século, o Instituto firmava-se dentro da produtora YB como uma chancela de qualidade, tanto para produtos autorais quanto comerciais. Ao lançar músicas do jeito que queriam, conseguiram criar uma grife estética que atraiu pessoas interessadas em bancar aquela nova linha de musicalidade brasileira, aberta a misturas e colaborações. Também fizeram trilhas para filmes, séries e até para museus (como a do Museu do Futebol, de São Paulo).

Equilibraram, assim, um negócio 100% autoral que era viável comercialmente, algo que permitia a eles fazer o que quisessem. Era um estúdio, uma produtora, uma gravadora, um selo de qualidade. Mas sua discografia oficial só contava com um disco de fato - "Coleção Nacional", lançado em 2002.

 

13 anos depois, o segundo disco#

A espera pelo segundo disco terminou em 2015, quando o grupo disponibilizou para download gratuito em seu próprio site o aguardado "Violar", que começou a ser gravado há quase 13 anos, em dezembro de 2002. “A gente começou [a organizar o material] quando o Lyrics Born veio para o Brasil”, explica Tejo em entrevista no atual bunker do grupo, no bairro  Vila Madalena, em São Paulo.

Ele explica que o coletivo californiano Quannum foi uma das inspirações para a criação do Instituto. Quando um de seus fundadores, o MC Lyrics Born, veio apresentar-se no país, os três conseguiram que o rapper participasse de uma gravação, e a partir dela começaram a pensar em lançar o segundo disco.

Além de Lyrics Born, "Violar" conta com outros músicos estrangeiros de grosso calibre, como o baterista de Fela Kuti, o pai do afrobeat, Tony Allen, o produtor Mike Helm e o trompetista do Chicago Underground Duo, Rob Mazurek. Mas são os nomes brasileiros que se destacam.

O novo disco do coletivo traz um verdadeiro quem é quem no atual pop brasileiro, indo do rapper Criolo à cantora Tulipa Ruiz, passando pelo grupo Nação Zumbi, o vocalista Otto, o trio Metá Metá, a MC Karol Conká, o rapper BNegão, o multiinstrumentista Curumin, o guitarrista Fernando Catatau, o cantor e compositor Gui Amabis, o baterista M. Takara, o guitarrista Gui Held, o compositor Fred Zero Quatro e o falecido rapper Sabotage, a partir de uma gravação de mais de uma década atrás.

Não é uma festa#

Apesar do desfile de grandes nomes, "Violar" não é uma festa. Seu clima é tenso e ele soa quase como um disco de protesto. E marca duas mudanças cruciais na história do Instituto: a saída de Daniel Ganjaman, que já está envolvido em outros projetos principalmente a partir do lançamento do segundo disco de Criolo, "Nó na Orelha", e o fim dos shows da banda, já que era Daniel quem tocava a parte ao vivo do grupo.

"Violar" saiu quando a dupla chegou a um consenso, em 2012, sobre o material que vinha reunindo. A capa do disco no formato digital é um vídeo bolado por Orion, que transformou o título "Violar" em letras de pixo paulistano feitas de néon. O filme, registrado por câmeras de segurança de um prédio, mostra a instalação das letras em um muro em São Paulo, quando é interrompida por policiais.

A capa impressa, que vai ilustrar no ano que vem um vinil, será uma transposição frame a frame do filme feito por Orion, que já havia colaborado em outra intervenção urbana com o Instituto em uma obra (chamada “Ossário”, também uma faixa do novo disco) em que desenhava caveiras humanas a partir da fuligem nas paredes de um dos túneis mais movimentados de São Paulo.

“Percebemos que todas as faixas tinham uma cara, que era uma parada meio incômoda. Que tem a ver com o nome ‘Violar’, com o trabalho do Orion. A maioria das letras é de protesto." Rica Amabis

A capa em preto e branco de "Violar" conversa diretamente com a temática inconsciente do disco, cujo título mistura musicalidade e violação. “É um disco que não tem tom maior, só tom menor”, realça Tejo, “que pode até ter um groove dançante, mas é um lado escuro”. Essa tensão é refletida nas letras e na sonoridade nervosa e perturbadora que não mais separa música nordestina, black music, hip hop, música eletrônica ou instrumental. É tudo uma coisa só - e o tom, de dedo na cara, é algo raro na música brasileira atual - ainda mais se levarmos o contraste entre um escapismo musical e os tempos de polarização intelectual e extremismo estético que vivemos.